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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

APENAS REPEITO - POESIA NOVA!

Eu não ajeito
Meu cabelo
Para você 
Me achar menos Preta
E esquecer meus feitos

Eu ajeito meu cabelo
Para firmar no peito
De onde eu vim
E curar as dores
De negação e medo

Alisar meu crespo
Só se for
De liberdade e amor
Ele não tem defeito!

Tranquilo e refeito
Quero meu crespo
Voando sem receio
Em paz com a história
E o olhar no espelho

Desejo também
Que um dia
Esse cruel efeito
De andar na rua
Com belos crespos
E ainda atrair olhares
De espanto e desprezo
Chegue ao fim
E se torne
Apenas respeito!

#literaturanegrafeminina
#autocuidado
#terapiapoética



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

VIDA DOMÉSTICA

Viola Davis em Histórias Cruzadas (2011)


Ela tem sua vida
Sufocada dentro de um quartinho
Que de tão pequeno
Acomoda perfeitamente
Seus poucos sonhos

Um ventilador ruído
De arejar o calor da labuta
Um perfume importado
De cheirar uma vez no ano
Uma carência pouca
Para que passe menos fome
Um quadro na parede
Dos filhos
Das irmãs
De uma mulher
De um homem...

Sua rotina 
Cabe em estreitos metrôs quadrados
No pouco espaço
Um vaso de pimenta
Outro sanitário
Água de privada 
E de manjericão
Ardor de naftalina
odor do suor...

E entre o cheiro do serviço
E a presença da sua raiz
A força do seu sorriso 
Traz acalanto
Mas não cura as dores 
De uma história roubada...

CARMEN FAUSTINO







sexta-feira, 18 de novembro de 2016

1 ano da Marcha das Mulheres Negras!

Há um ano fomos para Brasília, marchar contra o racismo, a violência e pelo bem viver!
Produzi esse texto dias depois, para a Revista Fala Guerreira!! Dia potente e inesquecível! 


Maré Negra, de Mulher!*

            "Durante esse ano, mais uma vez presenciamos uma tempestade de violências contra o povo negro, algumas ecoaram sem muita força nas mídias, a grande maioria, o estrondo estremeceu apenas pelos becos periféricos.
            Há décadas vivemos o silenciamento das nossas tormentas e esse foi um ano de muito sal. Milhares de Mulheres Negras se banharam em lágrimas pelo extermínio covarde dos jovens negros; pelas cinzas do fogo racista no chão das Yabás, atacadas na sua dignidade espiritual; pelas armadilhas do machismo desmascarado nas redes sociais e hostilizados pelos que negam sua problemática nos espaços de convivência; pela lama que afogou a existência de um chão ancestral, riqueza maior que qualquer ouro e prata; pelas muitas mulheres violadas no seu direito de vivenciar suas escolhas, em seus corpos, seus cabelos, seus discursos e sua sexualidade; pelo racismo xingado publicamente, sem nenhum receio ou vergonha de ser racista... 
              Tristeza à deriva, solidão nebulosa.
            Seria apenas mais um período de dor e luta como os muitos que já se passaram e que ainda estão por vir, mas um valoroso vento movimentou o olhar para os nossos espelhos, reluzindo um horizonte de possibilidades mais serenas na trajetória de resistência das Mulheres Negras. O ano de 2015 foi também de muita lucidez e compreensão plena,  sobre a necessidade de romper com o silenciamento imposto as nossas especificidades e mergulhar profundamente em nosso próprio mar de feridas abertas. Um passo fundamental para o exercício da fala e a busca por espaços de fortalecimento e cura coletiva, percurso muitas vezes doloroso e exaustivo, mas essencial para a quebra dos ciclos de violências e a potencialização da nossa percepção humana e apropriação da voz.
            As histórias mal contadas, dos livros escolares aos roteiros novelescos, do senso comum construído, aos discursos acadêmicos fundamentalistas, negam todo o legado e a realeza que as herdeiras do mundo trazem consigo. Não daremos mais espaços nem voz, para aqueles que não sabem das nossas verdades e não querem enxergar os reais valores das Mulheres Negras.
            O ano de maré revolta transcorreu em afogamentos, muitas lágrimas e em 18 de novembro, desaguou na primeira Marcha das Mulheres Negras, em Brasilia – DF. Marcha essa, que passou feito um furacão e trouxe na hora certa, boa dose de bonança e brisa leve para o corpo, alma e coração das Mulheres Negras, já salgados de tanto pranto. Nossos passos vêm de longe, nossa força e capacidade resiliente também. O que para muitos parecia miragem ou delírio navegante, se tornou gigante maremoto e 50 mil mulheres viajaram pelo país, desembarcaram na capital federal e se reuniram em uma quarta-feira de sol e chuva, para gritar alto, contra o racismo, a violência e pelo bem viver. Ansiosamente esperamos por esse dia e junto às parceiras do Núcleo Mulheres Negras, nos unimos ao cortejo e seguimos em coro, aguando e fertilizamos nossas raízes, cada vez mais vivas e entrelaçadas.  
            Um encontro de Mulher Negra, com dia e hora marcados, na capital que pensa política para poucos, e em 2015 fechou pastas importantes para as políticas públicas da nossa população. Mulheres Negras que olharam para si e suas iguais acreditando na força extraordinária que temos quando estamos juntas. Os abraços, sorrisos e o respeito trocados, foi o oxigênio que precisávamos para permanecer nesse mar e dimensionar que não estamos sós e não há horizonte para nossas vontades.
            Em meio às transformações individuais e coletivas, as gerações se encontraram, as crianças se acomodaram em seus colos e as Yabás, abriram o mar de Mulher Negra, uma energia ancestral conduziu nossa caminhada e marchamos emocionadas, contemplando a paisagem do pertencimento e nos banhando de renovação. O grito de Mulher Negra ecoou longe e com ginga, beleza e sorriso no rosto, ocupamos as ruas da elite política brasileira.
            Alinhamos nossas bússolas, analisamos nossos mapas e estamos preparadas para traçar as novas rotas de navegação para os próximos anos. Trazemos na bagagem, o enfrentamento e a força necessária para os dias de aguaceiro e vendaval, mas também o acolhimento e a escuta necessária para novos e frescos tempos de remanso. A fala e o afeto também nos pertence e projetamos navegar rumo a um horizonte de protagonismo das nossas histórias de amor e dor, à nossa maneira.

            Nesse mar quem navega agora somos nós! "


Carmen Faustino - Poeta, escritora, educadora e articuladora cultural. 
Periférica da zona sul e parceira feliz das publicações negra feminina.

#MarchadasMulheresNegras1Ano
#EuMulherNegra
#Rumoao20deNovembro

*Publicado na revista Fala Guerreira em novembro de 2015