Mostrando postagens com marcador mulheres negras. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mulheres negras. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Depois de um tempo longe aqui...voltei e tem livro novo!

Carmen Faustino (@carmen_faustino) enaltece o erótico em seu primeiro livro de poesia.

"Estado de Libido ou poesias de prazer e cura" é uma coletânea que oferece mais do que o universo erótico e nos convida à reflexões sobre afeto, intimidade, prazer, autocuidado, descobertas e curas, a partir da feminilidade da mulher negra.

Estado de Libido ou poesias de prazer e cura já está disponível no site da  Oralituras Editora (@oralituraseditora) da parceira e também potência Maitê Freitas (@maitemporina)!



 

sábado, 11 de novembro de 2017

III CONGRESSO - ESCRITORES DA PERIFERIA DE SÃO PAULO

Como nasce uma autora negra na periferia? Quais as suas motivações, inquietações e referências literárias? Quais os desafios que o mercado editorial impõe para as autoras negras? Como está o cenário das mulheres negras no processo de edição, diagramação, publicação e distribuição? No contexto político atual, quais temas são disparadores para o processo de criação de novas obras? 

Na terceira mesa do III Congresso Escritores da Periferia de São Paulo, vamos trocar uma ideia com a autora Miriam Alves e a poeta, escritora e editora Carmen Faustino sobre a cena literária protagonizada por mulheres negras nas periferias. A medição desse importante bate papo será realizada pela escritora Lids Sikeleli .

‎III CONGRESSO - ESCRITORES DE PERIFERIA DE SÃO PAULO

Compartilhando suas experiências na literatura e em coletivos culturais que fomentam o protagonismo da mulher negra, Carmen Faustino participa da mesa sobre autoras contemporâneas no III Congresso Escritores da Periferia de São Paulo. 

Além de poeta e escritora, Carmen também é arte-educadora, articuladora cultural, pesquisadora e ativista em São Paulo. Possui formação em Letras, especialização em História da África e cultura Afro Brasileira e atua há 10 anos nas áreas da educação, social e cultural. É uma das idealizadoras e articuladora do Núcleo Mulheres Negras - O amor cura, de vivências coletiva e discussões sobre raça e gênero, coordena o projeto Baobá – 
Fortificando as raízes, de formações sobre África e Africanidades e desenvolve oficinas de Literárias com foco na escrita negra e feminina.

A mesa de debate "A contribuição de autoras contemporâneas para a difusão da literatura negra do Brasil" acontece às 17h15, no dia 18/11.





terça-feira, 4 de abril de 2017

MULHERES NEGRAS INDICAM LIVROS PARA SE EMPODERAR - NA OLGA

Mulheres negras indicam livros para se empoderar - Na Olga
Mel Duarte – poeta, slammer e produtora cultural
Livro: Pretextos de mulheres negra
Organização: Carmen Faustino e Elizandra Souza

“Esse livro é uma coletânea de literatura marginal negra feminina com 22 autoras. Fazer parte desse processo, pra mim, foi muito enriquecedor. As meninas fizeram tudo com muito capricho e zelo, o que normalmente não acontece em coletâneas. As fotos das autoras foram tiradas durante um encontro em um parque, onde tivemos chance de conversar, falar um pouco de nós e vivenciar um dia diferente. Antes de fazer parte da publicação, não tinha poemas voltados apenas para a mulher negra, ainda estava num processo de entender o quê e como gostaria de falar sobre mim, sobre nós. Depois de lê-lo e ver tantas biografias incríveis assim como os poemas dessas mulheres, entendi o meu tom e compreendi a necessidade de ter poemas com esse recorte. Esse é daqueles livros que vale a pena presentear meninas que ainda estão passando por esse processo de entendimento da sua ancestralidade, aceitando o próprio corpo e cabelo. Perdi a conta de quantos dei de presente para amigas e familiares e de quantos retornos positivos tive a respeito do mesmo, por mulheres de diferentes idades e realidades. Pra mim, é um título importante porque é um marco da nossa geração e pela beleza que tem. A parte visual – linda – é feita pela artista Renata Felinto.”



sexta-feira, 24 de março de 2017

31/03/17 SEMINÁRIO: NEGÓCIOS DE IMPACTO PERIFÉRICO

Dia 31/03, a convite da mana Fabiana Ivo e seus parceiros da A Banca, estarei mediando essa mesa sobre iniciativas empreendedora nas periferias e seus impactos sociais. 
Ás 16 hs, na Sociedade Santos Mártires
Rua Luis Baldinato. s/n
Jardim Ângela

Segue divulgação:
"Venham entender, discutir, analisar as ferramentas do empreendedorismo a partir de experiências concretas, de construção de rede, vínculos, incubação e aceleramento."
Com Alânia Cerqueira e Giba
Mediação: Carmen Faustino.

Venham!


quinta-feira, 23 de março de 2017

DIA 25/03 TEM PERIFERIA SEGUE SANGRANDO!

Dia lindo promovido pelas manas da sul!
Nos vemos lá!!

PERIFERIA SEGUE SANGRANDO
Parte da vontade de nos encontrar para falar de nós e da necessidade de nos cuidar, nos olhar e nos amar.  É para bradar porque o sangue que escorre também é o nosso e não vamos nos calar! Vamos gritar alto e forte porque um coro de mulheres pobres, pretas, faveladas é potente, é vida, é a nossa resposta ao silêncio imposto a nós! 

E para celebrar as alegrias de percorrer outros territórios teremos também o LANÇAMENTO DA REVISTA FALA GUERREIRA #4, memória, lutas e resistência em Abya Ayla.

Vem e traga seu amor, sua beleza e sua inteireza de ser!

NOSSA PROGRAMAÇÃO: 

- 15h às 18h - Círculo de mulheres (EXCLUSIVO PARA MULHERES Cis, Trans e Viadas)
- 18h às 19h - Lançamento da FALA GUERREIRA 4 - Especial LatinoAmerica
- 19h às 20h - Sarau Mulheres Latinas
- 20h - Cortejo pelas ruas do Jd. Ibirapuera
- 22h - Festejo de encerramento: Alegria Y rebeldia

BARRACA DAS VENDAS:
Teremos nossas produções para vender!
- Oléos da Alê
- Desenhos da Carolzinha
- Livros da Jeny Nascimento
(quem tiver coisinhas pra vender pode trazer também!)

COMO CHEGAR:

No Terminal João Dias pegar 6801/10 _ Jd Ibirapuera e pedir pra descer no ponto final do Jd. Ibirapuera
No Terminal Santo Amaro pegar 6007 _Pq. Santo Antonio e pedir para descer no ponto final do Jd. Ibirapuera
VENDEREMOS CERVEJA NA HORA DA FESTA - la plata preferencialmente em dinheiro, mas vamos tentar descolar uma maquininha de cartão também.
Mais informações no evento: https://www.facebook.com/events/1582204491794604/"

Dia 25/03/2017
Endereço: Rua: Bento Barroso Pereira, 02 _ Jd. ibirapuera

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

VIDA DOMÉSTICA

Viola Davis em Histórias Cruzadas (2011)


Ela tem sua vida
Sufocada dentro de um quartinho
Que de tão pequeno
Acomoda perfeitamente
Seus poucos sonhos

Um ventilador ruído
De arejar o calor da labuta
Um perfume importado
De cheirar uma vez no ano
Uma carência pouca
Para que passe menos fome
Um quadro na parede
Dos filhos
Das irmãs
De uma mulher
De um homem...

Sua rotina 
Cabe em estreitos metrôs quadrados
No pouco espaço
Um vaso de pimenta
Outro sanitário
Água de privada 
E de manjericão
Ardor de naftalina
odor do suor...

E entre o cheiro do serviço
E a presença da sua raiz
A força do seu sorriso 
Traz acalanto
Mas não cura as dores 
De uma história roubada...

CARMEN FAUSTINO







quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Mulheres de Pedra e Núcleo Mulheres Negras: Intercâmbio de amor, amizade, vivência e fé-menina...

Há um ano, o Núcleo Mulheres Negras fez um intercâmbio inesperado e partiu para um encontro com as parceiras Mulheres de Pedra, em Pedra de Guaratiba - RJ.
Incrível, inesquecível e cheio de Fé...Menina!
Algumas fotos e um poema sobre esse lindo encontro!  





























Núcleo de Pedra, Mulher Negra de Fé

A lua mandou seu chamado
E conspirou, encontro marcado
Intuição quase certeza, mar infinito para sentir
Joguei para o universo
E mergulhei nos mistérios desse território fértil
Descobri aromas além do meu horizonte periférico

Flores-fortaleza, potência de mulher preta
A periferia que sangra
Pariu o Núcleo Mulheres Negras
No ventre, desejo de cura e partilha
Do sol, da lua, dos líquidos sagrados.
Portas e corações abertos

Com uma divina acolhida das Deusas
Em seu útero-quintal, igual casa de vó
A mangueira centenária, o muro baixo
As folhas de boldo a janela grande
Espaço de potência vital

Intensidade nas vivências, realeza na arte
Magia e ancestralidade que transbordou
Da lama, da luz, da tinta, da água
Com gosto de batata doce e café
Sambei e jonguei na roda
Sorri e chorei no círculo de paz

Os corpos flutuaram na pedra
O por sol batizou nossa dança
Os crespos enalteceram
E em transe, me tornei Deusa

Mulheres de Pedra...Se tanto bate até que fura 
O que transborda é amor
Respeito e admiração à lua, ao tambor

As emoções foram germinadas
E a conexão foi estabelecida
Volto fertilizada, molhada de água salgada
Dos olhos, do mar, do suor
A caminhada aqui segue, é longa
Flores e riso, choro e espinhos

E agora banhada de mais Fé...menina!


Carmen Faustino. Out/2015 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Núcleo Mulheres Negras: No grito mudo, ecoamos o rito da cor e trançamos histórias pretas! Carmen Faustino e Flávia Rosa



         Somos Mulheres Negras, a maioria na zona sul de São Paulo, a maioria nas inúmeras periferias desse mundão, a maioria no país. Mulheres negras, pobres, mães, filhas, bissexuais, lésbicas, heterossexuais e periféricas, que cotidianamente vivem uma avalanche de opressões, hostilidades e o não menos severo silenciamento de suas vozes, sua presença, seus amores e dores. Fomos jogadas em um abismo de escuridão, inércia e invisibilidade, que naturalmente sufoca, despreza e desqualifica profundamente todo o legado e grandeza que envolve o ser mulher negra.

Para elaborar uma reflexão com a complexidade e a humanização necessária, sobre as vivências, conflitos e ciclos de violências que envolvem as mulheres negras, na perspectiva das práticas da Justiça Restaurativa, se faz necessário uma boa e generosa dose de sensibilidade, empatia e percepção. Os olhares e raciocínio precisam estar em constante atenção, para que se atravesse a cortina de fumaça do racismo, abandono e solidão que encobre as verdadeiras histórias das mulheres negras, e se enxergue a realidade. Esse cuidado se estende ainda às armadilhas sociais que perpetuam em falsas idéias de pieguices e vitimismos, que perseguem as questões das mulheres negras.

Há séculos as mulheres negras são projetadas e vistas como mulheres submissas aos diversos grupos de poder econômicos e sociais. Somos vistas como as mulheres com corpos disponíveis e sexualizados, sem a necessidade de afetividade e respeito, as mulheres que são fortes e suportam todas as dores físicas e emocionais, as mães que podem criar sozinhas seus filhos, as mulheres que abrem mão de suas vidas para cuidar de outras, as mulheres que estão acostumadas a batalhar pelos seus objetivos,  que não reclamam e aceitam com humildade e gratidão, o pouco que é oferecido.

 Vivemos a desconfiança em torno da nossa capacidade intelectual nos espaços acadêmicos, profissionais e sociais, nos empurram para os trabalhos de subserviência, condenam nossos traços, a diversidade dos nossos corpos, a textura dos nossos cabelos, nossas escolhas afetivas e sexuais. São milhares de estigmas, e há séculos somos condicionadas e cobradas a corresponder expectativas, que nem sempre condiz com nossa real e reflexiva escolha.

A necessidade de socialização faz com que as muitas possibilidades de ser mulher negra sejam abafadas, por tentativas de enquadramentos que não nos cabem, nem nos contemplam. E não é permitido questionamentos, muito menos negar esse lugar dado, pois de nós, esperam sempre aceitação e o silêncio. 
  
Ser mulher negra é suportar as desconfianças e estereótipos que não escolhemos, mas que atravessam duramente o corpo e a alma, abrindo feridas latentes que não encontram alívio, cicatrização e se perpetuam ao longo dos anos. É ter que desenvolver ginga, malícia e aprender na marra, a manejar todas as ciladas e desafios que são oferecidos, travestidos de oportunidades, notoriedade e valor; é ter que levantar sozinha a cada rasteira e permanecer na estrada, pois o cansaço e a desistência não nos pertencem, nem teremos auxílio ou consolo, afinal nos consideram forte o bastante; é estar em punga e ser estrategista a todo o momento, para perceber a hora certa de transitar e gritar, se quiser ser vista e ouvida, mesmo constatando que muitas vezes ouvir não significa entender e respeitar.

Em uma sociedade, que vê o corpo de uma mulher negra servil e sem voz na mídia, ou sendo arrastado pelas ruas da cidade, com a mesma naturalidade hostil, ser mulher negra adoece a alma e mata nossos sonhos.   

Nessa trajetória de afrontamento e contínua busca pelo ser mulher negra em sua plenitude e integridade, encontramos inúmeros dificultadores, muita omissão, pouco preparo social e um enorme vazio nas ações voltadas às nossas especificidades. Não somos legitimadas em nossos discursos e muito menos amparadas pelas políticas públicas voltadas para a segurança, bem estar, saúde física, psíquica e emocional. O racismo, machismo e misoginia atingem fortemente os espaços públicos de saúde, educação e de leis de proteção e defesa, que deveriam como prioridade e dever, acolher e repudiar tais práticas. As maiorias de nós dependem e precisam desses serviços cotidianamente, portanto, também estamos submetidas às violências que são banalmente difundidas nesses espaços.     

 Ao pensarmos que a maioria da população de nosso país é mulher negra e periférica, conseguimos dimensionar o tamanho da violência praticada, do silêncio imposto e da negação do nosso existir. É desesperador pensar nas inúmeras e dolorosas consequências do grito entalado na garganta e do peso nas costa da maior parcela do nosso país.

Existimos e resistimos pelas muitas estratégias de sobrevivência que herdamos das nossas antepassadas e obrigatoriamente desenvolvemos nos cotidianos; resistimos pelos subterfúgios que atravessam o caminho e são transformados em oportunidades de superação e continuidade.

Nessa espinhosa caminhada, o tempo para o respiro, descanso e auto-cuidado são raros e escassos. Nossos corpos respondem ao abandono e com pouca percepção, as vidas de muitas de nós são tomadas pela dor, apatia e solidão.  

Temos um turbilhão infinito de emoções, emaranhadas e conflituosas, que também nos traz questionamentos e reflexões profundas sobre o lugar em que nos colocaram, os efeitos dessa subjetividade violentada e qual o caminho e lugar realmente desejamos ocupar e seguir. O que faremos por nós, para driblar esses perigos e sairmos do ciclo de dor e doença, uma vez que não podemos esperar ações de ninguém, pois é latente a falta de humanidade que é dada a negros e negras.

Ao longo da caminhada, uma certeza nos acompanha: Não aceitamos mais o lugar da invisibilidade e silêncio, e precisamos urgentemente cuidar de nós. Dentro de uma perspectiva contemporânea, se faz necessário desconstruir as mentiras, para se retomar o valor e respeito à ancestralidade das mulheres negras e o reconhecimento de suas trajetórias e contribuições no mundo. 

Ser Mulher Negra é possuir peculiaridades que nos enchem de conflitos e certezas. Um legado extenso demais para ocupar as pequenas páginas das histórias rasas e mal contadas que permeiam o imaginário social coletivo. As violências que sofremos desde que nos colocaram em diáspora, não é roteiro novelesco, não é mito, não é exagero, muito menos fraqueza! É perverso e cruel, traumatiza nossa humanidade, marca profundamente nossos corpos, atrofia e bloqueia nossos movimentos, nos tira a capacidade de doar e receber afeto, prazer, confiança e paz. 

Um feliz encontro nos proporcionou mergulhar no processo de construção do Núcleo Mulheres Negras. Juntas, abrimos um portal de possibilidades afetivas e a ampliação dos horizontes, que muitas vezes é limitado e ofuscado pela desconfiança e auto estima destruída. Transcendemos as imposições sociais e nos apresentamos aos espelhos de nós, nos presenteamos de afeto, doação e acolhida, ritual necessário para uma elaboração compreensiva e sensata das dores.

 O Núcleo Mulheres Negras nasceu de um silêncio herdado e ensurdecedor que ecoou na periferia sul de São Paulo em 2014. Mulheres negras que já se encontravam em outras estradas e que uma vez por mês, se juntam para elaborarem suas subjetividades conflituosas, carregadas de dores, alegrias e alívios. Um encontro que implodiu nossos corpos, sufocados das imposições sem escolha; transbordou alto e explodiu pelas bocas, corpos, poros e olhar. Foi parido no grito forte, fino e estridente, que urrou aos ouvidos menos atentos, despertou da doença racista que por muitas vezes nos deixa inertes e nos projetou uma nas outras.

 Nossos espelhos refletem igualdades e diferenças, força e fragilidades, lágrimas e sorrisos, quando nos colocamos em roda e olhamos umas nas outras em segredo, comungando de uma energia acolhedora, que nos permite demonstrar somente o que desejamos, mesmo que seja apenas naquele momento.

É urgente sair da dor, minimizar os efeitos das violências que recebemos e dignamente conseguir dizer não, para tudo àquilo que não aceitamos mais. Um poder que nos possibilita traçar a continuidade ou um novo caminho, com mais saúde, bem estar e decidir pelo que nos agrada; queremos ser mulher negra sem influências negativas e viver somente o que desejamos em nossas vidas.

As partilhas são repletas de momentos de fala, escrita e escuta, somos nós, nossa própria temática. As trocas de olhares e afagos acessam memórias e lugares esquecidos, não há espaço para o crivo do julgamento e podemos sucumbir como vier, pois a neutralidade é sensível e amorosa. No ápice das nossas emoções, percebemos a importância de localizar as doenças e expurgar o que não podemos mais carregar, para conseguir buscar entendimento e alternativas mais saudáveis para nossas vivências.

Descobrimos e construímos um espaço potencial de vida, repleto de sensibilidade, liberto de avaliações e pudores. Ser mulher negra é ter um universo dentro do peito e nossa roda de amor e cura, acomodam dignamente toda essa imensidão. Podemos escancarar tudo, ser e ter toda a intensidade que foi abafada ao longo dos anos. E a partir de um olhar panorâmico sobre nossa herança, entrelaçada na contemporaneidade que traz fortes dissabores e deleites, essa vivência nos projeta para horizontes mais saudáveis e prazerosos, que acalanta nossos pesares e reafirma com segurança, os momentos de alegria e prazer por completo, pois também nos pertence.  

É nosso lugar de potencialidade, criado na base do amor, para a cura das nossas. O Núcleo Mulheres Negras é feito de momentos únicos de intimidade coletiva e pessoal. A cada história parecida com as nossas e de tantas outras, os olhares e expectativas para a vida são renovados. Potencializar os momentos de escuta, olhar, compreensão e afeto, nos faz perceber que existe uma trajetória conjunta e que nossa subjetividade não pode mais ser abafada.

O maior exercício aplicado nas práticas da justiça restaurativa é o exercício do silêncio, para ouvir a si mesma e quem está com você. Não o silêncio doloroso da negação e desprezo que recebemos socialmente há anos, mas o silêncio que se relaciona e potencializa diretamente o alívio e conforto das companheiras, no momento em que cada uma faz a sua oração, joga para o círculo de paz e para o universo, o seu ser mulher negra, sem preocupações com o aval social, apenas deixando fluir os sentimentos diversos.

Percebemos que ser mulher negra é muito mais do que nós mesmas conhecemos. É aprendizado constante, exercício de autoconhecimento e das práticas de afeto e respeito pelas nossas histórias. Mulheres negras de diversas gerações, vivências afetivas, sexuais, familiares e sociais, partilham e experimentam o lugar da fala. Ouvir e confidenciar com mulheres mais velhas, crianças, mulheres casadas, solteiras, em singulares relações afetivas, de diversas profissões, vivências e anseios, reafirmam os propósitos que os processos de pertencimento são individuais, mas dialogam coletivamente.

Somos troncos de diferentes espessuras, folhas de diversas texturas e frutos de muitos sabores, mas partilhamos da mesma raiz.

São muitas histórias de continuidades e desconstruções que não cabem mais no silêncio. Os séculos emudecidos, aos pouco dão lugar ao exercício da oralidade e reaprendemos por meio da fala, a nos colocar no mundo. Uma herança fundamental para se retomar a circularidade natural das nossas vidas, pois desejamos a totalidade da nossa existência.

Somos descendentes das detentoras de saberes milenares, que aprenderam na observação e nas vivências individuais e  partilhadas, com o outro e com o universo. E generosas em atividade como sempre foram, nossas ancestrais partilharam e ainda partilham desse conhecimento, aprendem e ensinam quem tiver ouvidos e respeito para oferecer. Mulheres que avistam o céu prevendo dias de trovoadas, aguaceiros e terremotos, mas com a tranquilidade e a consciência da importância do movimento do mundo, acalentam os corações, na afirmação certeira que o brilho do sol virá ao final da tempestade.

Deusas da magia da vida, do sangue sagrado que fertiliza a terra, revitaliza o corpo e carrega o próximo. Somos a continuidade, que ginga os próprios desafios, reconhece os erros, reforça os acertos e grita alto em busca de mais afeto.  

A roda, o circular infinito, faz com que o silêncio da partilha, a cada encontro do Núcleo Mulheres Negras, seja preenchido de amor, cuidado e atenção uma com as outras, é esse silêncio que desejamos. Nossos líquidos sagrados, sangue, lágrimas, suor, saliva estão umedecendo cada vez mais nossos momentos, posicionando nossos espelhos e nos refletindo uma para as outras. Somos espelhos de mulheres negras.

Sejamos noite e dia, luz e escuridão, para enxergamos tudo o que está cego; sejamos amargor e doçura, frescor e ardor, para que cada uma perceba e escolha o que fazer com sua indigestão; sejamos rios, riachos, mares, cachoeiras, lagoas, goteiras, pororocas e tudo mais que for preciso para vazar e escorrer o ciclo de renovação da vida. Com segurança e pertencimento, desejamos retomar a direção com as próprias mãos, para que cada uma escolha por onde e com quem vai continuar a navegar.  

*Texto produzido para a publicação Sujeitos, cursos e percursos - Projeto Jovens facilitadores de práticas restaurativas. Abril/2016

http://cdhep.org.br/2015/wp-content/uploads/2016/04/Revista_sujeitosFrutosPercursos.pdf

terça-feira, 9 de agosto de 2016

Sobre corpos, estéticas e roupagens, arrumação por dentro e por fora...




Hoje foi dia de arrumar o guarda-roupa
Abrir as portas
Deixar arejar
Tirar tudo para fora
Mexer lá no fundo
Dos sentimentos engavetados
Olhar peça por peça
E tentar entender
Por que a emoção guarda pano velho
Que não serve, não alegra
Mas fica lá dobrado e empoeirado.

Encontrei um guarda-roupa saturado
Dos modelos que nunca conseguiu seguir
Vestimenta alinhada
Na medida das imposições
Que a vida empurrou para dentro da gaveta
Sufocado e cheirando a mofo
Resquícios das tentativas
De padronização do meu ser.

Gavetas de laços e cetins
Sensualidade de revista
Que agrada os olhos de quem vê
Mas incomoda o meu prazer
Aquela blusa de decote ousado
Esconde o seio oprimido
Não deixa livre
Busto abafado de armação e renda
O vento não arrepia o bico
Nem faz roçar no tecido fino e colorido
Marca o ombro
Aperta as costas
E trava o movimento
Não conforta a dignidade
Que carrego no peito
Nem faz contorno 

Na anatomia do corpo negro.

Aquela calça branca eu pouco usei
Para não marcar as coxas grossas
Nem destacar a grandeza do meu sexo
As pernas torneadas pela caminhada
A fartura de lábios, pêlos
E de prazer que tenho em mim
Se escondem na trama arrumada
De textura áspera e fenda rasa.

A calcinha que não marca o quadril
O vestido que não engorda na cintura
O sutiã que levanta os seios
O corpete que modela curvas...
Tudo jogado em cima da cama.

Percebo que há tempos
Essa guarda-roupa não cabe mais
Não acomoda os moldes do meu desejo
Meu corpo, mapa de tesouro
Quer somente o que precisa para ser feliz
Não aceita mais ataques
De modelos que não confortam, nem libertam
Só deformam
A forma daquilo que sou.

Limpei o guarda-roupa
Ventilei a poeira do medo
E o alivio salgou a velha roupagem
Troquei o manequim do pudor
Por um cabide leve e sem peso
Renovada a autoestima
Saí do armário
E olhando para o espelho
Prometi ao reflexo da mulher que vejo
Dizer não!
Às ditadura das normas!


Carmen Faustino

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Mulher negra é ouro, sempre foi!



Segunda-feira boa para constatar que, nas Olimpíadas para poucos brasileiros, ela é ouro...ela sempre foi!
E aos racistas de plantão, principalmente os que destruíram seu emocional em 2012, nem venham dizer agora que o "ouro é nosso"...o ouro é dela, é das mulheres, das mulheres negras!!
Laroyê!

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Ensaio fotográfico Ubuntu - Somos um só, somos todos negros em foco!

No começo de julho, me juntei com a mulherada do Núcleo Mulheres Negras e famílias, e participamos de um ensaio de fotos para o projeto Ubuntu - Somos um só, somos todos negros em foco, da maravilhosa Lena Silva e as Herdeiras de Aqualtune. 
Foi uma linda tarde de trocas e ensinamentos.
Segue uma prévia do que virá por ai...
Só agradeço! 








segunda-feira, 25 de julho de 2016

Presença

Sou exatamente como você vê...
Não sinta vergonha 
Em afirmar a cor da noite
Coroada de cabelo crespo
Embaraçados de resistência Africana
Sou exatamente como você vê
Não estranhe o corpo
Extenso, beleza nas curvas
Gingado que não tem cópia
Poros que transpiram vida
Sou exatamente como você vê...
Entenda a força da realeza
Sorriso que ilumina o dia
Olhos de lince em cada gingada
Fala afiada, revide e defesa
Sou exatamente como você vê...
Não negue meu ser mulher negra
Não omita meu valor
E nunca,
Nunca mais ouse me fazer invisível!!

CARMEN FAUSTINO

#EuMulherNegraResisto
#MulheresNegras
#TerezaDeBenguela