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segunda-feira, 21 de agosto de 2017

POESIA - SANKOFA


Veja bem senhor
É preciso respeito
Valorizar o que veio 
Antes de você
Aceite
Eu vim antes de você
Não é idade
Nem data no papel
Minha voz
Ecoa séculos ancestrais
O despertar de um mundo
Profundo e complexo
História de aprender
Ensinando
É legado de fé
Imensidão de luz
Que não cabe
Na palidez
Do seu caderno
Entenda
Sankofa
Não é enfeite
Respeite!
CARMEN FAUSTINO

terça-feira, 30 de maio de 2017

POESIA - ROTINA

imagem da internet
Depois do amor gostoso
O desejo é deitar em seu peito
E adormecer lentamente
Sentindo
O cheirinho tesão da vitória

Parar no tempo
E esquecer
O horário apertado
O trabalho para fazer
A conta para pagar
A louça para lavar...

Satisfação de quem venceu
A tensão, o conflito
E suou
Para chegar ao fim da corrida

Mas,
Para não perder a medalha
E o gostinho sacana da sua largada
Desperto satisfeita e preguiçosa
Deixo a água escorrer o prazer
Pelo ralo do banheiro

Sem dizer adeus ou até logo
Sincera
Retorno feliz 
Meu porto seguro espera 
Firme e intenso
E com ele
A rotina
Da afetividade construída
Das crises consentidas 
O trabalho para fazer
A louça para lavar
A conta para pagar...

CARMEN FAUSTINO

quinta-feira, 23 de março de 2017

DIA 25/03 TEM PERIFERIA SEGUE SANGRANDO!

Dia lindo promovido pelas manas da sul!
Nos vemos lá!!

PERIFERIA SEGUE SANGRANDO
Parte da vontade de nos encontrar para falar de nós e da necessidade de nos cuidar, nos olhar e nos amar.  É para bradar porque o sangue que escorre também é o nosso e não vamos nos calar! Vamos gritar alto e forte porque um coro de mulheres pobres, pretas, faveladas é potente, é vida, é a nossa resposta ao silêncio imposto a nós! 

E para celebrar as alegrias de percorrer outros territórios teremos também o LANÇAMENTO DA REVISTA FALA GUERREIRA #4, memória, lutas e resistência em Abya Ayla.

Vem e traga seu amor, sua beleza e sua inteireza de ser!

NOSSA PROGRAMAÇÃO: 

- 15h às 18h - Círculo de mulheres (EXCLUSIVO PARA MULHERES Cis, Trans e Viadas)
- 18h às 19h - Lançamento da FALA GUERREIRA 4 - Especial LatinoAmerica
- 19h às 20h - Sarau Mulheres Latinas
- 20h - Cortejo pelas ruas do Jd. Ibirapuera
- 22h - Festejo de encerramento: Alegria Y rebeldia

BARRACA DAS VENDAS:
Teremos nossas produções para vender!
- Oléos da Alê
- Desenhos da Carolzinha
- Livros da Jeny Nascimento
(quem tiver coisinhas pra vender pode trazer também!)

COMO CHEGAR:

No Terminal João Dias pegar 6801/10 _ Jd Ibirapuera e pedir pra descer no ponto final do Jd. Ibirapuera
No Terminal Santo Amaro pegar 6007 _Pq. Santo Antonio e pedir para descer no ponto final do Jd. Ibirapuera
VENDEREMOS CERVEJA NA HORA DA FESTA - la plata preferencialmente em dinheiro, mas vamos tentar descolar uma maquininha de cartão também.
Mais informações no evento: https://www.facebook.com/events/1582204491794604/"

Dia 25/03/2017
Endereço: Rua: Bento Barroso Pereira, 02 _ Jd. ibirapuera

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Mulheres de Pedra e Núcleo Mulheres Negras: Intercâmbio de amor, amizade, vivência e fé-menina...

Há um ano, o Núcleo Mulheres Negras fez um intercâmbio inesperado e partiu para um encontro com as parceiras Mulheres de Pedra, em Pedra de Guaratiba - RJ.
Incrível, inesquecível e cheio de Fé...Menina!
Algumas fotos e um poema sobre esse lindo encontro!  





























Núcleo de Pedra, Mulher Negra de Fé

A lua mandou seu chamado
E conspirou, encontro marcado
Intuição quase certeza, mar infinito para sentir
Joguei para o universo
E mergulhei nos mistérios desse território fértil
Descobri aromas além do meu horizonte periférico

Flores-fortaleza, potência de mulher preta
A periferia que sangra
Pariu o Núcleo Mulheres Negras
No ventre, desejo de cura e partilha
Do sol, da lua, dos líquidos sagrados.
Portas e corações abertos

Com uma divina acolhida das Deusas
Em seu útero-quintal, igual casa de vó
A mangueira centenária, o muro baixo
As folhas de boldo a janela grande
Espaço de potência vital

Intensidade nas vivências, realeza na arte
Magia e ancestralidade que transbordou
Da lama, da luz, da tinta, da água
Com gosto de batata doce e café
Sambei e jonguei na roda
Sorri e chorei no círculo de paz

Os corpos flutuaram na pedra
O por sol batizou nossa dança
Os crespos enalteceram
E em transe, me tornei Deusa

Mulheres de Pedra...Se tanto bate até que fura 
O que transborda é amor
Respeito e admiração à lua, ao tambor

As emoções foram germinadas
E a conexão foi estabelecida
Volto fertilizada, molhada de água salgada
Dos olhos, do mar, do suor
A caminhada aqui segue, é longa
Flores e riso, choro e espinhos

E agora banhada de mais Fé...menina!


Carmen Faustino. Out/2015 

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Núcleo Mulheres Negras: No grito mudo, ecoamos o rito da cor e trançamos histórias pretas! Carmen Faustino e Flávia Rosa



         Somos Mulheres Negras, a maioria na zona sul de São Paulo, a maioria nas inúmeras periferias desse mundão, a maioria no país. Mulheres negras, pobres, mães, filhas, bissexuais, lésbicas, heterossexuais e periféricas, que cotidianamente vivem uma avalanche de opressões, hostilidades e o não menos severo silenciamento de suas vozes, sua presença, seus amores e dores. Fomos jogadas em um abismo de escuridão, inércia e invisibilidade, que naturalmente sufoca, despreza e desqualifica profundamente todo o legado e grandeza que envolve o ser mulher negra.

Para elaborar uma reflexão com a complexidade e a humanização necessária, sobre as vivências, conflitos e ciclos de violências que envolvem as mulheres negras, na perspectiva das práticas da Justiça Restaurativa, se faz necessário uma boa e generosa dose de sensibilidade, empatia e percepção. Os olhares e raciocínio precisam estar em constante atenção, para que se atravesse a cortina de fumaça do racismo, abandono e solidão que encobre as verdadeiras histórias das mulheres negras, e se enxergue a realidade. Esse cuidado se estende ainda às armadilhas sociais que perpetuam em falsas idéias de pieguices e vitimismos, que perseguem as questões das mulheres negras.

Há séculos as mulheres negras são projetadas e vistas como mulheres submissas aos diversos grupos de poder econômicos e sociais. Somos vistas como as mulheres com corpos disponíveis e sexualizados, sem a necessidade de afetividade e respeito, as mulheres que são fortes e suportam todas as dores físicas e emocionais, as mães que podem criar sozinhas seus filhos, as mulheres que abrem mão de suas vidas para cuidar de outras, as mulheres que estão acostumadas a batalhar pelos seus objetivos,  que não reclamam e aceitam com humildade e gratidão, o pouco que é oferecido.

 Vivemos a desconfiança em torno da nossa capacidade intelectual nos espaços acadêmicos, profissionais e sociais, nos empurram para os trabalhos de subserviência, condenam nossos traços, a diversidade dos nossos corpos, a textura dos nossos cabelos, nossas escolhas afetivas e sexuais. São milhares de estigmas, e há séculos somos condicionadas e cobradas a corresponder expectativas, que nem sempre condiz com nossa real e reflexiva escolha.

A necessidade de socialização faz com que as muitas possibilidades de ser mulher negra sejam abafadas, por tentativas de enquadramentos que não nos cabem, nem nos contemplam. E não é permitido questionamentos, muito menos negar esse lugar dado, pois de nós, esperam sempre aceitação e o silêncio. 
  
Ser mulher negra é suportar as desconfianças e estereótipos que não escolhemos, mas que atravessam duramente o corpo e a alma, abrindo feridas latentes que não encontram alívio, cicatrização e se perpetuam ao longo dos anos. É ter que desenvolver ginga, malícia e aprender na marra, a manejar todas as ciladas e desafios que são oferecidos, travestidos de oportunidades, notoriedade e valor; é ter que levantar sozinha a cada rasteira e permanecer na estrada, pois o cansaço e a desistência não nos pertencem, nem teremos auxílio ou consolo, afinal nos consideram forte o bastante; é estar em punga e ser estrategista a todo o momento, para perceber a hora certa de transitar e gritar, se quiser ser vista e ouvida, mesmo constatando que muitas vezes ouvir não significa entender e respeitar.

Em uma sociedade, que vê o corpo de uma mulher negra servil e sem voz na mídia, ou sendo arrastado pelas ruas da cidade, com a mesma naturalidade hostil, ser mulher negra adoece a alma e mata nossos sonhos.   

Nessa trajetória de afrontamento e contínua busca pelo ser mulher negra em sua plenitude e integridade, encontramos inúmeros dificultadores, muita omissão, pouco preparo social e um enorme vazio nas ações voltadas às nossas especificidades. Não somos legitimadas em nossos discursos e muito menos amparadas pelas políticas públicas voltadas para a segurança, bem estar, saúde física, psíquica e emocional. O racismo, machismo e misoginia atingem fortemente os espaços públicos de saúde, educação e de leis de proteção e defesa, que deveriam como prioridade e dever, acolher e repudiar tais práticas. As maiorias de nós dependem e precisam desses serviços cotidianamente, portanto, também estamos submetidas às violências que são banalmente difundidas nesses espaços.     

 Ao pensarmos que a maioria da população de nosso país é mulher negra e periférica, conseguimos dimensionar o tamanho da violência praticada, do silêncio imposto e da negação do nosso existir. É desesperador pensar nas inúmeras e dolorosas consequências do grito entalado na garganta e do peso nas costa da maior parcela do nosso país.

Existimos e resistimos pelas muitas estratégias de sobrevivência que herdamos das nossas antepassadas e obrigatoriamente desenvolvemos nos cotidianos; resistimos pelos subterfúgios que atravessam o caminho e são transformados em oportunidades de superação e continuidade.

Nessa espinhosa caminhada, o tempo para o respiro, descanso e auto-cuidado são raros e escassos. Nossos corpos respondem ao abandono e com pouca percepção, as vidas de muitas de nós são tomadas pela dor, apatia e solidão.  

Temos um turbilhão infinito de emoções, emaranhadas e conflituosas, que também nos traz questionamentos e reflexões profundas sobre o lugar em que nos colocaram, os efeitos dessa subjetividade violentada e qual o caminho e lugar realmente desejamos ocupar e seguir. O que faremos por nós, para driblar esses perigos e sairmos do ciclo de dor e doença, uma vez que não podemos esperar ações de ninguém, pois é latente a falta de humanidade que é dada a negros e negras.

Ao longo da caminhada, uma certeza nos acompanha: Não aceitamos mais o lugar da invisibilidade e silêncio, e precisamos urgentemente cuidar de nós. Dentro de uma perspectiva contemporânea, se faz necessário desconstruir as mentiras, para se retomar o valor e respeito à ancestralidade das mulheres negras e o reconhecimento de suas trajetórias e contribuições no mundo. 

Ser Mulher Negra é possuir peculiaridades que nos enchem de conflitos e certezas. Um legado extenso demais para ocupar as pequenas páginas das histórias rasas e mal contadas que permeiam o imaginário social coletivo. As violências que sofremos desde que nos colocaram em diáspora, não é roteiro novelesco, não é mito, não é exagero, muito menos fraqueza! É perverso e cruel, traumatiza nossa humanidade, marca profundamente nossos corpos, atrofia e bloqueia nossos movimentos, nos tira a capacidade de doar e receber afeto, prazer, confiança e paz. 

Um feliz encontro nos proporcionou mergulhar no processo de construção do Núcleo Mulheres Negras. Juntas, abrimos um portal de possibilidades afetivas e a ampliação dos horizontes, que muitas vezes é limitado e ofuscado pela desconfiança e auto estima destruída. Transcendemos as imposições sociais e nos apresentamos aos espelhos de nós, nos presenteamos de afeto, doação e acolhida, ritual necessário para uma elaboração compreensiva e sensata das dores.

 O Núcleo Mulheres Negras nasceu de um silêncio herdado e ensurdecedor que ecoou na periferia sul de São Paulo em 2014. Mulheres negras que já se encontravam em outras estradas e que uma vez por mês, se juntam para elaborarem suas subjetividades conflituosas, carregadas de dores, alegrias e alívios. Um encontro que implodiu nossos corpos, sufocados das imposições sem escolha; transbordou alto e explodiu pelas bocas, corpos, poros e olhar. Foi parido no grito forte, fino e estridente, que urrou aos ouvidos menos atentos, despertou da doença racista que por muitas vezes nos deixa inertes e nos projetou uma nas outras.

 Nossos espelhos refletem igualdades e diferenças, força e fragilidades, lágrimas e sorrisos, quando nos colocamos em roda e olhamos umas nas outras em segredo, comungando de uma energia acolhedora, que nos permite demonstrar somente o que desejamos, mesmo que seja apenas naquele momento.

É urgente sair da dor, minimizar os efeitos das violências que recebemos e dignamente conseguir dizer não, para tudo àquilo que não aceitamos mais. Um poder que nos possibilita traçar a continuidade ou um novo caminho, com mais saúde, bem estar e decidir pelo que nos agrada; queremos ser mulher negra sem influências negativas e viver somente o que desejamos em nossas vidas.

As partilhas são repletas de momentos de fala, escrita e escuta, somos nós, nossa própria temática. As trocas de olhares e afagos acessam memórias e lugares esquecidos, não há espaço para o crivo do julgamento e podemos sucumbir como vier, pois a neutralidade é sensível e amorosa. No ápice das nossas emoções, percebemos a importância de localizar as doenças e expurgar o que não podemos mais carregar, para conseguir buscar entendimento e alternativas mais saudáveis para nossas vivências.

Descobrimos e construímos um espaço potencial de vida, repleto de sensibilidade, liberto de avaliações e pudores. Ser mulher negra é ter um universo dentro do peito e nossa roda de amor e cura, acomodam dignamente toda essa imensidão. Podemos escancarar tudo, ser e ter toda a intensidade que foi abafada ao longo dos anos. E a partir de um olhar panorâmico sobre nossa herança, entrelaçada na contemporaneidade que traz fortes dissabores e deleites, essa vivência nos projeta para horizontes mais saudáveis e prazerosos, que acalanta nossos pesares e reafirma com segurança, os momentos de alegria e prazer por completo, pois também nos pertence.  

É nosso lugar de potencialidade, criado na base do amor, para a cura das nossas. O Núcleo Mulheres Negras é feito de momentos únicos de intimidade coletiva e pessoal. A cada história parecida com as nossas e de tantas outras, os olhares e expectativas para a vida são renovados. Potencializar os momentos de escuta, olhar, compreensão e afeto, nos faz perceber que existe uma trajetória conjunta e que nossa subjetividade não pode mais ser abafada.

O maior exercício aplicado nas práticas da justiça restaurativa é o exercício do silêncio, para ouvir a si mesma e quem está com você. Não o silêncio doloroso da negação e desprezo que recebemos socialmente há anos, mas o silêncio que se relaciona e potencializa diretamente o alívio e conforto das companheiras, no momento em que cada uma faz a sua oração, joga para o círculo de paz e para o universo, o seu ser mulher negra, sem preocupações com o aval social, apenas deixando fluir os sentimentos diversos.

Percebemos que ser mulher negra é muito mais do que nós mesmas conhecemos. É aprendizado constante, exercício de autoconhecimento e das práticas de afeto e respeito pelas nossas histórias. Mulheres negras de diversas gerações, vivências afetivas, sexuais, familiares e sociais, partilham e experimentam o lugar da fala. Ouvir e confidenciar com mulheres mais velhas, crianças, mulheres casadas, solteiras, em singulares relações afetivas, de diversas profissões, vivências e anseios, reafirmam os propósitos que os processos de pertencimento são individuais, mas dialogam coletivamente.

Somos troncos de diferentes espessuras, folhas de diversas texturas e frutos de muitos sabores, mas partilhamos da mesma raiz.

São muitas histórias de continuidades e desconstruções que não cabem mais no silêncio. Os séculos emudecidos, aos pouco dão lugar ao exercício da oralidade e reaprendemos por meio da fala, a nos colocar no mundo. Uma herança fundamental para se retomar a circularidade natural das nossas vidas, pois desejamos a totalidade da nossa existência.

Somos descendentes das detentoras de saberes milenares, que aprenderam na observação e nas vivências individuais e  partilhadas, com o outro e com o universo. E generosas em atividade como sempre foram, nossas ancestrais partilharam e ainda partilham desse conhecimento, aprendem e ensinam quem tiver ouvidos e respeito para oferecer. Mulheres que avistam o céu prevendo dias de trovoadas, aguaceiros e terremotos, mas com a tranquilidade e a consciência da importância do movimento do mundo, acalentam os corações, na afirmação certeira que o brilho do sol virá ao final da tempestade.

Deusas da magia da vida, do sangue sagrado que fertiliza a terra, revitaliza o corpo e carrega o próximo. Somos a continuidade, que ginga os próprios desafios, reconhece os erros, reforça os acertos e grita alto em busca de mais afeto.  

A roda, o circular infinito, faz com que o silêncio da partilha, a cada encontro do Núcleo Mulheres Negras, seja preenchido de amor, cuidado e atenção uma com as outras, é esse silêncio que desejamos. Nossos líquidos sagrados, sangue, lágrimas, suor, saliva estão umedecendo cada vez mais nossos momentos, posicionando nossos espelhos e nos refletindo uma para as outras. Somos espelhos de mulheres negras.

Sejamos noite e dia, luz e escuridão, para enxergamos tudo o que está cego; sejamos amargor e doçura, frescor e ardor, para que cada uma perceba e escolha o que fazer com sua indigestão; sejamos rios, riachos, mares, cachoeiras, lagoas, goteiras, pororocas e tudo mais que for preciso para vazar e escorrer o ciclo de renovação da vida. Com segurança e pertencimento, desejamos retomar a direção com as próprias mãos, para que cada uma escolha por onde e com quem vai continuar a navegar.  

*Texto produzido para a publicação Sujeitos, cursos e percursos - Projeto Jovens facilitadores de práticas restaurativas. Abril/2016

http://cdhep.org.br/2015/wp-content/uploads/2016/04/Revista_sujeitosFrutosPercursos.pdf

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Um samba para cantar, um poema para inspirar... Disritmia




"Eu quero me esconder debaixo
Dessa sua saia, para fugir do mundo..."

Nego
Pode vir
Se embrenhe nessa mata
Meu tecido colorido de vida
Recebe com ânsia
Seu coração vagabundo

Se esconda de tudo
No emaranhado de pelos
Cabelos
Entre minhas pernas
Te dou abrigo

Se atente
Meu coração confesso
Cabe o dengo do mundo
Quer flores no caminho
Não aceita mais atrito
Ande em paz comigo

Minha saia rodada
Gira ventania 
Tem lanças nas pontas
E trama ardilosa nos tecidos
Rede armadilha para invasões
Proteção contra conflitos
O samba em nosso ritmo

Vivo contigo na boemia
Beijo e café
Curam o porre
Mas se cambalear
Em nosso livre trato
Te deixo hipnotizado
Perdido
Em sua disritmia

Sem meu acalanto
Sem a minha calmaria...

Carmen Faustino

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Consciência amor-política





Reivindiquei amor na base 
E urgência na emenda 
Botei fé no partido
E votei consciente!
Em campanha relâmpago
Ao pé do ouvido
Afinou o discurso de bem querer
E no corpo a corpo
Flertou e despertou desejo...
Eu,
Cidadã do mundo
Descrente das propostas vazias
Ocultada de imparcialidade
De muito projeto, mas pouca coragem
Onde a sentença é solidão
Mirei paixão sem culpa
Burlei a melancolia do desamor
E apostei na política do afeto
Abri as alvoradas do coração
Desejo de amor para os próximos anos
Diante o cenário de crise
Greve de cuidados
E recessão de apego
Altivez e direção crespa
É estratégia de luta
Disposto ao trabalho
Iniciou plano de gestão olho a olho
Debatemos parceria
E administração do corpo e alma
Integração dos ministérios
E distribuição de ternura e prazer
Principalmente nas regiões secas
E carentes de calor
Sem burocracia
Matar a sede
Alimentar o desejo
Morada no peito
E cura da solidão
Água, alimento, moradia
Saúde e educação...
Se gerenciar o afeto
O governo se completa
Em outras eleições,
Depositei voto e adesão
Em falsas promessas
Silenciei o golpe do abandono
E da corrupção do meu ser mulher negra
Sem compromisso preto-político.
Na atual conjuntura
Enquanto os corpos se manifestarem
Em favor de uma real democracia
O contrato é vitalício
Aliança que dá certo
Gestão participativa
Sou primeira dama do seu querer
És presidente do meu coração
É formação básica necessária
Política pública essencial
Garantia da nossa existência
E de viver os desafios do amor
Eu não renuncio!
Carmen Faustino

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Encontro

Na espera...
Pelo mágico encontro
Mente vazia, peito cheio
Anseio, da noite mais pura
A luz, o brilho da lua
O banho, quase um ritual
Corpo responde ao toque, descubro
A meia-lua, me visto quase nua
No peito carmim, gotas de flor
No ouvido, som da diáspora negra
Em ânsia, aperto o peito
Suspiro, e acalmo o desejo
Aguardo imaginando o melhor desfecho.
Você chega...
Conhece bem meus caminhos
Bocas salivam vinho
Sons do desejo, respiros profundos
Sem pudor eu recebo, matas se irrigam
Flutuo, queimo
Aconchego no abraço
Idealizo, quero sempre esse abrigo
Se me encontro contigo, me encontro comigo

Carmen Faustino
*Publicado na antologia Pretextos de Mulheres Negras, organização de Carmen Faustino e Elizandra Souza. 2013

História sem fim

Diz que tem medo
E quer distância do bicho papão
Será?!
Histeria sem fundamento
Soberba alva e insana
No silêncio dessa gritaria
Paira a nuvem do desespero
Não aceita
Perdeu poder e privilégios
Do alto do seu castelo
Restam frustrações e as lembranças
Dos tempos em que ele era sua única posse...
E o bicho papão?
Saiu da apatia
Despertou da utopia
Da falsa abolição
Enrustida de social ascensão...
Deixou a candura para trás
Entendeu o golpe da mistura
Enfureceu!
Escureceu!
Enfatizou!
Encrespou!
Enamorou!
Engrandeceu!
Elevou!
Constatou
Que amor preto é bom
Resistência e tradição
Afirmação da negação
Caminhar sozinho é solidão
Retomou suas riquezas
Encontrou sua mais valiosa joia
Se reconstruiu Rei
Me refiz Rainha
Seguimos
Enfrentando os embates do dia
Gingando as armadilhas mundanas
Trançando reinados de sonhos crespos
Edificando com solidez as relações
E olhando atento
Sempre para o mesmo horizonte
Carmen Faustino